Olhos Cor de Avelã

Capitulo IX

***

Extrapolando tudo que seria discrição Jyann abriu a boca dizendo:
- Foi para salvá-lo Majestade! O Capitão morreria se ela não o tivesse medicado. 

~* Medicado com o que soldado? 

Eu estava irada com Jyann! Como eu poderia explicar diante do meu Rei que eu dei ao seu soldado mais valoroso uma poção do amor? E que esse mesmo poderia se apaixonar por qualquer ser vivente. Inclusive o Rei...? Para minha sorte: acho... O próprio Capitão me salvou dizendo: 

- Espero que voces não estejam sugerindo que o Capitão dos Arqueiros deu a mim uma poção que me fez apaixonar por ela. 

Ele sorriu e concluiu 

- Isso seria muito engraçado! Eu só despertei de um lindo sonho. 

= Eu particularmente acharia engraçado mesmo... - Eu falei sem graça.

- Eu disse engraçado? Eu queria dizer estúpido! Muito estúpido mesmo! 

O Capitão falou me dando uma cutucada com o cotovelo, um hábito que eu odiava, mas que já tinha desistido de reclamar, ele não parava com aquilo mesmo. Ele continuou com um sorriso enorme: 

- Me apaixonar pelo capitão dos arqueiros seria a pior ideia que eu poderia ter na vida, se querem saber minha opinião. 

- Uau! Essa foi direta e doída Capitão! Pega leve! 

Falou Jyann com uma tapinha no ombro do Capitão Draven que acabara de se levantar e estava calçando as botas. O capitão parou de calçar as botas e ficou encarando Jyann, porém com um olhar nostálgico... Depois torceu o nariz e continuou o que estava fazendo. 

~* Deselegante, mas perspicaz soldado! O Capitão não é um idiota completo. 

Disse o Rei depois deu-nos as ordens: 

~* Precisamos deportar o Rei Liano! 

- Vai soltá-lo Majestade? Ele deveria ir para o calabouço! 

~* Eu quero que o levem para sua Ilha o solte lá, e só depois entregue sua espada. Faça o que ele pedir, concorde com as condições que ele quiser se não for “Anatólia” Precisamos desse Rei amansado para não precisarmos ser mais enérgicos. 

- Majestade ele me feriu de morte. 

~* Capitão voce também o feriu! Voce está vivo e bem! Ele ficou cego de um olho e já é um senhor! 

O capitão se calou. Eu pedi para escoltar o Rei Liano até sua Ilha, Jyann rapidamente se prontificou em ir também. O Capitão Draven disse: 

- Não eu vou leva-lo para “casa” 

= Capitão desculpe-me a falta de respeito em ir contra seu desejo, mas o senhor é o melhor para guardar o nosso Rei. Não pode deixar o acampamento! Não sabemos se o exército do Rei Liano está preparando uma emboscada. Hoje à tarde nossos homens já estarão bem para marcharem. E montarão guarda até nossa volta. Só preciso de mais dois espadachins além de Jyann e eu por precaução. Afinal ele é um Rei! 

O capitão percebeu que eu tinha razão e escolheu os soldados para me acompanhar. Hesmar foi pessoalmente retirar o Rei Liano das pulseiras de ferro. O Rei estava bravo! Hesmar falou com ele que o escoltaríamos a sua ilha, quando ele viu que eu seria um dos soldados ficou mais calmo. Eu tinha curado seu olho vazado. Eu não tinha um poção com poder de lhe dar a visão, mas a que eu tinha o curou a ferida causada pela flecha e o livrou da dor infernal. Eu apanhei uma sacolinha nas minhas coisas, onde eu guardava minha “boline” e alguns pertences. Esvaziei a sacolinha e coma a faca cortei um circulo, arranquei o cadarço da sacolinha e amarrei no circulo em um furinho de cada lado. Pedi licença ao Rei Liano para retirar suas bandagens. A ferida estava totalmente cicatrizada por fora, a colagem tinha sido perfeita. Coloquei o circulo que fiz sobre o olho vazado como um bonito “Tapa-olho”! como o que meu amigo Onix possuía. A seguir dei a ele meu espelhinho para olhar-se. Enquanto olhava seu rosto no espelho longamente e com o seu costumeiro sorriso, ele disse: 

- Não é que eu fiquei bonitão! Obrigado moça! 

Já estava tudo pronto para viagem e seguimos para o local onde ficava escondido o barco do Rei. Jyann que era muito ágil com os remos ficou em uma ponta e um dos soldados na outra enquanto o soldado Castilho e eu sentamos de frente para o Rei Liano. Depois de um longo período da viagem em silêncio O Rei falou: 

- Voce sabe que as duas ilhas pertencem ao meu Reino não sabe? 

= Porque o Senhor acha isso? 

- Porque as duas ilhas são ligadas por uma extensão de terra, e sendo “Atêmi” a maior Ilha "Anatólia" é por direito do reino de “Atêmi”. Meu reino tem  a posse de toda a terra que fica ao redor dela ou que esteja ligada a ela...

= Não necessariamente! Porque foi há muito tempo que existia essa extensão de terra, no tempo dos Deuses. E eu posso te garantir Majestade com certeza, que essa ligação não existe mais. As ilhas são separadas e cada uma por si. 

- Voce fala isso para dar ponto ao seu Rei. 

Não! Eu falo isso porque sou uma estudiosa. Eu sei sobre os oceanos, Há muito tempo atrás, milhares de anos  para ser mais exata, poderia até ser acertado esse seu pensamento sobre as ilhas. (Apenas poderia) Porque é “Anatólia” o principal reduto dos Deuses. Até hoje é o santuário da “Deusa Sol” Se fosse para reclamar seria “Anatólia” a reclamar a posse de “Atêmi”. Entretanto, isso não é mais necessário. Vou te dar um exemplo Majestade! Porque eu desconfio que sejam obrigados a colocar essa questão entre as duas Ilhas na mão de um Juiz que irá procurar profundamente quem tem a razão. E temo que o seu Reino possa perder pela questão que terminei de dizer ainda á pouco. “Anatólia” é a ilha principal para os Deuses. E para acabar com a guerra os Juízes dará a posse a “Ilha principal” mais próspera, mais engajada em questões sociais. O motivo de dizer que não precisa mais brigar pelas ilhas e o exemplo que mencionei é que: 

Por muito tempo, houve um único oceano principal que era chamado de “Pantalassa” e sobre ele, um único e gigantesco bloco de terras emersas denominadas “Pangeia”. Esse continente reunia As Américas. Mas com o passar dos séculos, as águas do “Pantalassa” causou a fragmentação da “Pangeia” (o bloco de terra único) dividindo-a. Sua fragmentação iniciou-se na era Mesozoica, há cerca de 180 milhões de anos, dando origem aos atuais oceanos e continentes que são: África, Europa, Ásia e Oceania. 
Com esse exemplo eu quero mostrar a vossa Majestade que o tempo separou as ilhas gêmeas. Agora seus reinos são cada um por si. Não existe mais fronteira. 

O Rei Liano ficou por um bom tempo em silêncio, olhando para o mar e vez ou outra olhava para mim com o olhar indagador. E assim ele foi até o cais de “Atêmi” em silêncio. Nós o deixamos no cais com sua espada e uma grande responsabilidade: Dizer ao Cardeal e aos estrategistas dele, que não adiantaria lutar pela “Ilha de Anatólia”.

Voltamos e contamos ao Rei Hesmar sobre o que ocorreu na nossa viajem. O Rei Hesmar ficou perplexo! Primeiramente por eu saber tanto sendo um soldado e uma fêmea. Parece que na ilha as fêmeas não se preocupavam muito em serem estudiosas. E sobre as divisões de terras emersas era uma coisa que ele já havia pensado, para o caso de chegarem a um Júri. Mas nunca disse a ninguém, porque todos achavam que ele era um menino mimado pelo pai e não um guerreiro, estrategista e ministro financeiro. Como eu disse antes um verdadeiro Rei. Nem sua própria mãe dava nada por ele. Ela achava que as horas que ele passava na biblioteca eram se divertindo com leituras para adolescentes. E nem imaginava que seu filho sabia lutar e que se tornou um grande estrategista. Eu pedi licença para fazer a ronda! Montei “Rocyfer” e fui investigar os pontos que seriam escolhidos pelos inimigos para uma emboscada. 

Após cavalgar vários quilômetros quadrados eu estava me preparando para voltar... “Rocyfer” levantou-se nas patas traseiras e relinchou forte. Era um aviso de perigo eminente. Passei a ter mais cuidado, eu estava em campo aberto, era um alvo fácil para arqueiros. Toquei no pescoço de “Rocyfer” para ele disparar em ziguezague e ficar a salvo de flechas. Galopamos em alta velocidade até a entrada da floresta onde estava o acampamento e diminuímos a marcha procurando ficar entre as árvores. De repente “Rocyfer” empinou, mas eu não tive tempo de me defender... Senti duas mãos fortes segurar meu pescoço me asfixiando... Parecia que era alguém muito grande que me segurou de uma árvore... De maneira que eu fiquei sem movimentos sobre minha montaria... Ficar sem ar é desesperador, nós não conseguimos pensar com clareza, então esperei que as mãos soltassem minha garganta... As mãos afrouxaram um pouco, mas senti algo espetar sobre meu pulmão contraído pela posição desconfortável e uma voz zombeteira dizer: 

- Olha só para voce! Uma coisa patética sobre um cavalo mais patético que se acha um soldado do Rei. Ouvi dizer que é uma princesa elfa. Que desperdício de sangue nobre

Eu tentei ignorar a voz... Fechando os olhos... Aborrecer-me aquela altura só iria piorar as coisas pela minha impulsividade. Afinal aquele monólogo soava a mim, mais como derrotismo do que como alguém que queria realmente alguma coisa real, e a voz continuou irritante. 

- Sendo elfa ou não, acabou para voce. Não quero que ajude ao Rei com suas manobras élficas. Quem mandou sair da selva para morrer aqui no fim do mundo? Mate-a logo Jax. 

Aquele nome fez com que eu tentasse me remexer sobre “Rocyfer” que estava estático com medo de que eu caísse de sua cela e ai sim, morresse asfixiada pelas grandes mãos... Jax era a grande Dríade que eu vi com dois soldados na floresta. 

*- Não! Já chega! Voce disse que iria assustá-la. Não posso matar a filha de Mothar! 

- Porque não pode? O cardeal me disse que voce faria tudo que eu mandasse. 

*- Sim! Sou obrigada a fazer o que o senhor mandar! Mas não matar uma elfa! 

Falando isso ela me soltou... Eu puxei o ar... E senti doer meus pulmões por causa de algo que me espetava. Mantive-me imóvel, mas virei a cabeça e abri os olhos contra luz tentando enxergar quem estava falando... Ao meu lado esquerdo estava um adolescente com olhos saltados de ódio, lãs vermelhas, os olhos dele era de um “Hazel” (olhos cor de avelã) desconcertante... O uniforme com o emblema da Família real “Vorgel”. .. Armado de um maravilhoso arco pronto para disparar a queima roupa... Eu fiquei olhando para aquela figura por uns segundos com olhar firme e a cabeça erguida, mas ele não abaixou a mão, pigarreou, aprumou o corpo e disse : 

- Dê adeus a esse mundo elfa. 

Eu voltei a olhar para frente. Percebi que aquele rapaz estava pronto a me matar, mas percebi também que ele fazia com um grande esforço mental. Então,  sem demonstrar nenhum movimento prévio, eu toquei no pescoço de “Rocyfer” que disparou. Surpreendendo o rapaz. Ele demorou um pouco depois atirou duas flechas com maestria, Mesmo “Rocyfer” estando em ziguezague uma das flechas acertou minha coxa.... 




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